Os Maias são uma obra intemporal de Eça de Queirós que, apesar de ser camuflada como um romance, apresenta diversas críticas à sociedade portuguesa desse tempo (que por vezes ainda são atuais).
Uma dessas críticas é à educação! Mas, de que forma é que Eça comentou as práticas educativas da época?
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Intrigas
Intriga Secundária: Pedro da Maia & Maria Monforte
Pedro, já mais velho, era descrito fisicamente como uma pessoa pequena e fraca, com uma face oval e olhos irresistíveis, que se assemelhavam a “um belo árabe”.
Já a nível psicológico, Pedro era indiferente à vida, não possuindo nenhuma curiosidade sobre o mundo e restringindo todo o interesse da sua vida a uma paixão forte pela mãe. Devido a este desinteresse, Pedro sofria frequentemente de crises de melancolia negra, onde ele ficava murcho e mudo, com umas olheiras fundas.
O seu pai ainda pensou em enviá-lo para Coimbra para ir estudar, mas Afonso cedeu aos pedidos da mãe, que não conseguia imaginar-se a separar do seu filho mimado. No entanto, a doença de Maria piorou e acabou por morrer, levando a que o seu filho ficasse em sofrimento durante dois anos.
Passados estes dois anos, Pedro anima-se ao se apaixonar por Maria Monforte, filha de um homem responsável por levar escravos para o Brasil, sendo assim chamado popularmente como “negreiro”.
Maria era caracterizada como uma mulher com olhos maravilhosos, uma testa curta e clássica e com cabelos louros. Apesar de ter feito uma impressão em todos os homens de Lisboa, rapidamente perdeu este interesse devido aos negócios do seu pai.
Assim, Maria Monforte e Pedro começam a namorar, sendo que Pedro começa a escrever duas cartas por dia a Maria e dedica todo o seu tempo a esta paixão.
Este amor era descrito como:
Era um amor à Romeu, vindo de repente numa troca de olhares fatal e deslumbradora, uma dessas paixões que assaltam uma existência, a assolam como um furacão,...
o que evidenciava o desenlace trágico deste amor. Na verdade, sempre que deixava de receber cartas de Maria, Pedro ficava com enxaquecas, revelando o seu espírito frágil.
Um dia, Pedro pede ao seu pai para casar com Maria Monforte, recebendo uma recusa justificada com o emprego do pai de Maria. Esta recusa leva à separação de pai e filho, com a ida apressada de Pedro para Itália após se casar com Maria.
Em Itália têm uma filha e depois de retornarem a Lisboa, engravidam novamente, nascendo Carlos da Maia. Em Lisboa, os dois viviam uma vida de festa com serões frequentes, o que leva a que Pedro fique entediado com aqueles hábitos de luxo e de festa, principalmente quando via Maria acompanhada de outros homens.
Durante este período, o casal ainda tenta se reconciliar com Afonso, no entanto, todas as tentativas falham ou são adiadas por Maria.
Um dia, Maria Monforte foge com um italiano e com a sua filha, levando a que Pedro fique devastado e suplique por ajuda ao seu pai, dirigindo-se ao Porto, onde este vivia. Na madrugada do dia seguinte, Pedro acaba com a sua vida, com uma pistola.
Apesar de não ser mais falado de Maria Monforte, já quase no final do Livro, a restante história desta é descrita pelas outras personagens, principalmente pelo Sr. Guimarães. Então, após fugir de Portugal, Maria terá ido para Viena e depois para Paris, tendo ocorrido várias desgraças durante este período, como a morte do italiano que a acompanhava, a morte de uma das filhas e a fuga da outra filha.
Mais tarde na sua vida, adoece e morre quase na miséria, recusando sempre ajuda da família Maias.
Assim, a nível geral:
Pedro, o protótipo do herói romântico, era uma pessoa fraca, resultado da debilidade da sua mãe, do ensino português, da sua proteção exagerada e por viver durante o ultrarromantismo, levando a um predomínio da emoção, o que resultou num casamento apressado e falhado que acabou no suicídio.
Maria Monforte, também vítima do Romantismo, era leviana e amorosa, sem preocupações culturais ou sociais. Desta forma, tinha uma personalidade fútil, sendo fria, cruel e interesseira.
Acaba por ser a culpada por todas as desgraças da família Maias, ao levar ao suicídio de Pedro, separando Carlos e Maria Eduarda e até levando à morte por desgosto de Afonso da Maia!
Intriga Principal
Educação
Posto isto, temos um evidente paradoxo entre os dois tipos de educação representada. A educação tradicional é mais conservadora, tacanha e medíocre, gerando pessoas fracas moral e fisicamente, como é visível no caso de Pedro da Maia e de Eusebiozinho.
Já a educação inglesa é mais prática, sendo considerada o modelo a seguir para o país conseguir sair da estagnação em que se encontrava. Apesar de aparentemente ser a educação ideal, esta também apresenta falhas, pois a influência do meio torna-se superior e imponente, criando pessoas fracas, boémias e luxuosas.
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Modelo inglês - Carlos da Maia |
Modelo tradicional - Eusebiozinho |
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O professor era Brown |
O professor era Abade Custódio |
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Aprendizagem de línguas vivas |
Aprendizagem de línguas mortas |
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Valorização do exercício físico, brincadeiras e divertimentos |
Tinha como base a religião católica |
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Contacto com a Natureza |
Estudo da cartilha |
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Rigor, ordem e método |
Valorização da memória |
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Não havia estudo da cartilha |
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Não havia estudo do conhecimento teórico |
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Valorização da criatividade e juízo crítico |
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Um dos episódios d’Os Maias onde a educação é posta em confronto por parte das personagens é no serão em Santa Olávia.
O serão em Santa Olávia
O dia fora convidava, adorável, de um azul suave, muito puro e muito alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os gerânios vermelhos estavam já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, de uma delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flores do campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos baixos, a areia fina faiscava de leve àquele sol tímido da Primavera tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa hora de sesta numa luz fresca e loura.
Linguagem e Estilo
Como é possível notar através das descrições de Santa Olávia, Eça de Queirós apresentava uma linguagem inovadora para a literatura portuguesa da época, visível tanto pelo impressionismo das descrições, como pelo realismo dos diálogos. Assim, vamos agora analisar a linguagem e estilo da obra Os Maias em detalhe!
Em períodos diferentes do texto, é visível um estilo de linguagem diferente.
Assim, durante a narração é usada uma linguagem maleável pela necessidade de relatar objetivamente os acontecimentos. Durante o diálogo Eça usa o linguajar coloquial (popular).
Durante as descrições minuciosas Eça de Queirós frequentemente usa um linguajar sensorial e serve os propósitos do realismo (rigor da observação e análise dos acontecimentos sociais). Durante o monólogo Eça “ajuda” a explorar o mundo interior das personagens.
Finalmente, os comentários permitem a intervenção de um narrador que, ora adotando uma focalização omnisciente, ora uma focalização interna, tudo observa com olhar crítico e contundente.
Recursos expressivos
Durante esta obra Eça de Queirós usa diversos recursos expressivos sendo estes: Ironia; Hipálage; Comparação e metáfora
Ironia- Figura em que se afirma literalmente uma ideia quando se quer transmitir a mensagem contrária, conferindo leveza e humor à narração, estando associada a uma intenção crítica e permitindo evidenciar contradições e incongruências.
Ex: “Quase desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber”(Capítulo III)
Hipálage- Atribuição a uma entidade de uma característica que se refere a outra, expressa ou subentendida no discurso e à qual não se adequa em termos semânticos, conferindo elegância e expressividade à prosa.
Ex.“Ega espalhava também pelo quarto um olhar pensativo […]”(Capítulo XVII)
Metáfora e Comparação
Comparação - aproximação explícita de duas ideias ou realidades para destacar as suas semelhanças ou diferenças, através da conjunção “como” ou de verbo e expressões a ela equivalentes como “parecer” , “assim como” , etc.
Metáfora - aproximação de dois conceitos ou duas realidades que partilham entre si uma mesma característica.
Estes recursos permitem:
- Descrever o estado de alma - Ex: “[…] os bigodes esvoaçando ao vendaval das paixões […]” (Capítulo VI)(metáfora)
- Descrever uma paisagem -Ex: “[…] uma das alamedas laterais […] e uma paz religiosa, como um claustro […]”(Capítulo VIII) (comparação)
Surgem aliadas à ironia e ao intuito trocista -Ex: “-Tem todas as condições para ser ministro: tem voz sonora, leu Maurício Block, está encalacrado, e é um asno!...”(Capítulo VII)
O Adjetivo e o advérbio
O Adjetivo e o advérbio são utilizados com grande expressividade:
O Adjetivo é ligado a elementos aos quais, normalmente, não está associado do ponto de vista semântico.
Ex: “sorriso mole”; “Chiar lento”
O Advérbio surge, frequentemente, de forma inesperada e surpreendente.
Ex: “ […] remexia desoladamente o seu café […]”
Ambos projetam a subjetividade do enunciador e desencadeiam efeitos humorísticos.
Verbo
O Verbo é toda palavra que indica ação, estado ou fenômeno da natureza.
Produz combinações sugestivas e repletas de significado.
Ex : “Vamo-nos gouvarinhar […]”
O imperfeito e o gerúndio dão conta do valor aspectual ou durativo da ação, caracterizando a vida das personagens
Ex : “O tédio lento ia pesando outra vez […]”
Os estrangeirismos
Durante a obra podemos ver dois tipos de estrangeirismos: Anglicismos- vocábulos de origem inglesa
Galicismos ou francesismos- vocábulos de origem francesa
Estes evidenciam o desejo de mostrar requinte e cosmopolitismo (pensamento filosófico que discorda das fronteiras geográficas impostas pela sociedade, considerando que a humanidade segue as leis do Universo), revelando o jogo de aparências da alta sociedade lisboeta. O seu uso espelha a submissão acrítica ao modelo cultural francês.
Os diminutivos
Diminutivo- é a palavra que foi modificada para transmitir um menor grau de seu significado original.
A utilização dos diminutivos pode ter significados quase opostos:
- Projeta a subjetividade do narrador, indicando afeto (por exemplo, «Carlinhos»)
Resulta de uma intenção sarcástica, visando a depreciação ou a ridicularização de alguém, evidencia a atitude trocista do narrador na crítica de comportamentos e costumes (por exemplo, «Damasozinho»).
Conclusão
Autoria:
Beatriz Santos
Filipe Correia
Margarida Miranda
Marta Filipa
Ricardo Rocha
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Extremamente completo!
ResponderEliminarConcordo com o Marco. Está bem completo, mas muito extenso.
ResponderEliminarAchei que o trabalho estava muito extenso. No entanto, todos os detalhes fornecidos ajudaram-me a compreender melhor os temas abordados (principalmente o da educação).
ResponderEliminarBom trabalho colegas :)
Ao ler este trabalho consegui retirar imensa informação, no entanto achei que não é um trabalho que cative tanto quem está a ler, visto que é bastante extenso. Como não há uma grande variedade de imagens que poderiam colocar no vosso trabalho, eu sugeria terem feito noutro formato.
ResponderEliminarTal como os meus colegas já referiram, por ser bastante extenso (o que é compreensível dada a quantidade de temas a tratar) torna-se difícil manter a concentração. No entanto, é um trabalho elucidativo que nos permite compreender de tudo um pouco. Parabéns!
ResponderEliminarMuito bem! Parabéns!
ResponderEliminarTrabalho bem organizado e com informação relevante. Tenho a certeza de que foi muito útil para quem o leu.
E talvez ainda venha a ser, por isso, quem ainda não o fez, não deixe de consultar.
Ele continuará aqui.